

História oral resgata
desenvolvimento econômico
Laboratório da Univille preserva
relatos sobre os ciclos de expansão da cidade e a descoberta de sua
vocação industrial
Maria Cristina Dias
Repórter do AN Cidade
Quatorze marceneiros, seis carpinteiros, quatro farmacêuticos,
mecânicos, ferreiros, armeiros, tecelões, torneiros, ceramistas,
professores, médicos e engenheiros. Um ano após o desembarque
da primeira leva de imigrantes na Colônia Dona Francisca, uma rápida
análise do perfil profissional das pessoas que decidiram tentar a
sorte nestas paragens dava uma amostra do rumo que ela iria tomar. Em pouco
tempo, o núcleo se desenvolveu economicamente e em 17 anos a receita
com exportações de produtos manufaturados e beneficiamento
de madeira e couro já superava o gasto com as importações
de artigos de primeira necessidade. Hoje, 146 anos depois da chegada da
barca Colon, Joinville tem na indústria a sua grande fonte de riquezas
e é a maior economia do Estado de Santa Catarina.
No final de 1852, o relatório remetido pelo diretor da colônia
à presidência da Província de Santa Catarina contabilizava
quatro indústrias estabelecidas, além de uma ferraria e oficinas
de artesãos. Um ano depois, este número já chegava
a 11, que se somavam a armazéns de secos e molhados, padarias, açougues
e hospedarias.
As características urbanas do imigrante que aqui chegou em muito
contribuíram para que Joinville logo cedo deixasse de lado a produção
agrícola. Mas outros fatores também foram importantes, como
a inadequação das terras para a agricultura e a localização
privilegiada, o que proporcionava o escoamento da produção
de outras áreas, como o Planalto Norte e o Sul e Sudoeste do Paraná.
Em relato ao laboratório de História Oral da Univille,
o professor de economia Valdir Prochnov conta que o rio Cachoeira era utilizado
para o escoamento de produtos vindos do Norte, como madeira, chás,
carnes, frutas típicas da Serra e a erva-mate, que originou importante
ciclo econômico da história de Joinville. O destino era o Porto
de São Francisco do Sul e o Sul do País. "O primeiro
grande produto da indústria joinvilense veio a ser a erva-mate cultivada
no Planalto Norte e trazida <I>in natura<I> para Joinville,
onde se instalaram os grandes moinhos", relata o professor. Para facilitar
o comércio, em 1858 tinha início a construção
da Estrada da Serra, hoje conhecida como Estrada Dona Francisca e ainda
a principal ligação com o Planalto.
Com isto, explica o professor, houve um processo de acumulação
primitiva de capital na cidade, ou seja, a riqueza gerada pela atividade
econômica acabou ficando sediada em Joinville e com o enriquecimento
da região surgiram empreendimentos importantes até hoje, como
a Fundição Tupy. "A Tupy nasceu produzindo ferramentas
para a atividade agropecuária, mas também produzindo ferragens
para o meio de transporte da época", relata Prochnov, referindo-se
ao período em que o transporte de cargas e pessoas era feito em carros
puxados a cavalo, o que demandava ferragens e ferraduras.
O ciclo da erva-mate perdurou até a década de 30 deste
século, quando países como Argentina e Uruguai começaram
a produzir a erva que consumiam, assim como o Rio Grande do Sul. Porém
a cidade foi se adaptando gradativamente à nova realidade e quando
o Brasil intensificou o processo de industrialização, nas
décadas de 50 e 60, Joinville já contava com significativa
experiência empresarial.
COMEÇO FAMILIAR
O nascimento de empresas que fizeram a história de Joinville
apresenta muitas características em comum. Em sua maioria, elas faziam
parte da evolução profissional do fundador, que começava
desenvolvendo um ofício e ia ampliando o negócio, desenvolvendo-se
junto com a cidade. Na maior parte dos casos contavam a princípio
apenas com a mão-de-obra familiar e aos poucos iam gerando renda
e, conseqüentemente, empregos.
Em 1874, durante a primeira exposição agroindustrial organizada
na colônia, já se podia observar centenas de empreendedores
estabelecidos, entre eles um fabricante de sabão e velas, chamado
Friedrich Louis Wetzel. Marceneiro de formação, este imigrante
alemão chegou com a família à colônia Dona Francisca
em 1856. Durante o dia, trabalhava em seu ofício e à noite
se dedicava a fazer velas e sabão, que vendia a caminho do serviço.
Era a origem da Cia. Wetzel, que é apontada como uma das mais antigas
indústrias locais. Outra que figura entre as pioneiras é a
têxtil Döhler, que desde o século passado também
contribui para o desenvolvimento da cidade.
Neste século, a formação das empresas da cidade
não foi diferente. A necessidade de aumentar a renda familiar e a
visão empreendedora marcaram o surgimento de negócios de vários
portes e segmentos. A história da formação das tradicionais
empadas Jerke é um bom exemplo. Em depoimento dado ao Laboratório
de História Oral, o comerciante Ronaldo Eduardo Jerke conta que o
pai, Carlos Guilherme Jerke, era tecelão e veio de Brusque no final
da década de 10 para trabalhar na Fabril Lepper, tradicional indústria
têxtil de Joinville.
Para complementar a renda, ele, aos poucos, começou a fazer empadas
e cocadas em um pequeno quarto alugado na rua dos Ginásticos, no
centro. Depois, colocava a produção em cestos e saia de bicicleta
para vendê-la. "Começou devagarinho e foi, foi, foi...
Vendia dez empadas, depois 20, 30, depois 100. Saia com duas cestas grandes
na bicicleta. De cada lado uma. Vendendo isto, foi pouco tempo. Depois se
estabeleceu", conta o filho. Em três anos, o tecelão conseguiu
construir a casa da rua João Colin, onde até hoje a empadaria
está estabelecida. A inauguração oficial foi em 1922.
Nascido em 1939, Ronaldo Jerke conta que ajudava os pais para ganhar
uma mesada nos finais de semana e, assim, ir ao cinema. Em 1965, o pai decidiu
parar e a transição foi natural. "Olha, te vira rapaz.
Isso ai é teu", teria dito o velho Jerke ao filho. Hoje o negócio
já está nas mãos da terceira geração
da família e é um dos principais referenciais da cidade.
Estabelecimens
comerciais vendiam de tudo
Às vezes, a empresa ou estabelecimento comercial surgia a partir
do primeiro emprego, de uma vocação de infância, da
continuação dos negócios da família. Outras
vezes, de uma combinação de todos estes fatores. O comerciante
Oscar Seefeld iniciou-se nas atividades comerciais em 1950, em Pirabeiraba.
Para adquirir credibilidade, trabalhou durante um ano no comércio
do sogro e somente em 1951 passou os negócios para seu nome. Especialização
era algo impraticável. "Naquela época vendíamos
tudo em geral, porque o colono precisava de tudo: fazendas, louças,
armarinho e bebidas", relatou Oscar ao Laboratório de História
Oral da Univille.
Ao invés de fazer grandes compras, os consumidores preferiam adquirir
os produtos na medida da necessidade e anotavam as despesas na tradicional
caderneta. "As pessoas compravam todos os dias ou toda semana... Duas
vezes por semana... E tinham cadernetas para vendas a prazo", recorda
o comerciante. A margem de lucro nas vendas também era muito diferente
das praticadas atualmente. Seefeld conta que nos gêneros alimentícios
ela era de 5%, chegando a 10% nos tecidos, louças e ferramentas.
Na época, Pirabeiraba contava apenas com três automóveis
e os colonos levavam os produtos para Joinville de carroça. Os colonos
saíam de suas terras por volta das 2 horas da madrugada para levar
os legumes para a cidade, onde chegavam por volta de 10 horas da manhã.
"Era de cinco a sete horas de viagem. Tudo na base da carroça",
recorda Seefeld. No distrito, o principal ramo de negócios eram os
alambiques de cachaça, as usinas de açúcar, mas já
nas décadas de 40 e 50 podiam ser observadas as atividades de uma
cooperativa leiteira e cinco ou seis casas de comércio.
"O começo é sempre este aí: pequeno. Não
adianta começar uma grande coisa e depois não segurar".
A afirmação é do fundador das Telas Schramm, Raul Augusto
Schramm, que em 1949 queria fazer um galinheiro e teve a idéia de
fazer a tela de proteção. "Pois como se fazia tela? Não
sabia, mas comecei. Um sarrafo amarrava, enrolava o arame por cima, esticava
a malha e enfiava uma na outra. E deu para fazer", conta.
A idéia deu certo e logo os conhecidos também queriam telas
para seus galinheiros. Foi criada uma máquina para fazer telas e
a empresa começou a se delinear. A princípio o negócio
era clandestino e a regularização ocorreu em 1950, 1951, quando
um fiscal da Prefeitura deu o ultimato: ou registra a firma ou fecha.
Ele lembra que as restrições comerciais impostas durante
a 2ª Guerra Mundial fizeram com que as importações da
Alemanha fossem cortadas e uma "lista negra" de empresas fosse
estabelecida. "Toda firma que estava nesta lista negra não podia
comprar de ninguém no País", recorda. Quem vendia para
estas empresas também passava a ser discriminado. "Isto atrasou
o comércio, mas, enfim, a indústria eu acho que não
padeceu muito. Não havia produtos importados, então tinha
que produzir aqui o equivalente, ou pelo menos parecido, para negociar",
explica.
A partir deste período inicia um novo ciclo na vida econômica
de Joinville, com o surgimento de empresas que iriam romper os limites da
cidade e levar seus produtos para diversas partes do País e do mundo.
Mas aí já é uma outra história.
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IMAGENS HISTÓRICAS
1 4 6 anos

Rua das Palmeiras, árvores plantadas para recepcionar o príncipe
Joinville que acabou não vindo

Bombeiros Voluntários de Joinville se exercitam
Comunidade une-se
contra fogo e
cria voluntários
Dimitri do Valle
Repórter de Política
Final do século 19. O som estridente de um sino de bronze ecoa
pelo enclave alemão localizado em pleno território brasileiro.
Joinville acordava e adormecia na expectativa do toque de emergência
que vinha da imponente torre de madeira do quartel do Corpo de Bombeiros
Voluntários. Ela ficava ali, às margens do límpido
rio Cachoeira, onde hoje está a Casa da Cultura. Numa verdadeira
"corrente-pra-frente", os sinos das igrejas também dobravam,
chamando a atenção dos voluntários, cuja corporação
caminha para 105 anos.
No engatinhar dos primeiros dias do novo século, a paz só
era perturbada pelos incêndios. Como que movidos por uma histeria
coletiva, gerentes de bancos, industriais e pessoas menos abastadas largavam
seus afazeres para seguir as carroças vermelhas. A neurose e a expectativa
cediam lugar à solidariedade. Correntes humanas passavam os baldes
de couro dos córregos e ribeirões à bomba da rústica
unidade de combate a incêndios. A força de 12 homens (seis
de cada lado) pressionando o equipamento fazia espirrar a água contra
as chamas. Era uma guarnição feita de pessoas e paixão.
Lembrada hoje, resgata um quinhão da história de Joinville
e de seus ancestrais.
As labaredas ameaçadoras também ajudavam a criar um perfil
de heroísmo em torno do bombeiro voluntário. "Naquele
tempo todo bombeiro trabalhava de graça. Todos largavam o trabalho
e corriam para o lugar onde o incêndio estava acontecendo", recorda
Arthur Zietz, com 55 anos de profissão, 25 dos quais no comando da
corporação. Zietz lembra que a figura do bombeiro era reverenciada
pela comunidade, o que é confirmado através da participação
de integrantes de todas as camadas sociais da cidade. Os primeiros passos
dos voluntários estão registrados em atas que têm mais
de um século. O papel do livro exibe uma qualidade impressionante
e a tinta usada para escrever as informações transpôs
a barreira do tempo. A caligrafia é gótica e o idioma, alemão.
DO SINO À SIRENE
O aparecimento do automóvel e da luz elétrica causou transformações
na corporação. Motoristas de táxi da tradicional rua
do Príncipe passaram a ser os condutores oficiais dos veículos
dos bombeiros. O infalível sino de bronze e a velha sede de madeira
foram substituídos por uma sirene e um galpão construído
em estilo enxaimel próximo ao atual prédio, inaugurado em
1956 na rua Jaguaruna, 13. Arthur Zietz, que ingressou como voluntário
na década de 40, inspirado por seu pai, que também era bombeiro,
lembra que o vizinho do quartel recebia os chamados de emergência
em seu telefone. Este morador tinha a incumbência de soar o alarme
quando o fogo era sinônimo de prejuízo para alguém.
Da garagem do QG, dois caminhões Chevrolet modelos 1923 e 1926
saíam em disparada para chegar o mais rápido possível
até o local do incêndio. Arthur Zietz chegou a dirigir as viaturas
- uma delas estará exposta no Museu Nacional do Bombeiro Voluntário.
Nem a substituição das carroças inquietou os joinvilenses
que ainda perseguiam os caminhões para ver de quem era a propriedade
que estava ardendo em chamas. "Se não fosse toda essa paixão,
hoje os bombeiros voluntários não teriam sobrevivido",
diz Arthur Zietz. O operário, a dona-de-casa e o comerciante quebravam
suas rotinas de trabalho ao ouvir o sinal de emergência. Todos os
caminhos levavam ao ponto da tragédia. "Enchia de curiosos,
como acontece ainda hoje em dia", enfatiza o comandante.
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