

BARBARIZADA PELA MODERNIDADE, JOINVILLE PERDEU
O SENTIDO DE COLITIVIDADE COM QUE OS IMIGRANTES OUSARAM SONHAR. ´E
PRECISO RECUPERAR A QUALIDADE DE VIDA
Resgatar a identidade
e reconstruir a esperança
Apolinário Ternes
Especial para A Notícia
Tempo houve em que tínhamos uma alma. Um rosto
também. Mais que uma geografia um espírito. O espírito
do lugar. Foram tempos passados, e não distantes. Tínhamos
identidade. Sabíamos, portanto, o que éramos. Conscientes
da nossa própria utopia, tínhamos o que fazer com o fazer
de cada dia.
Joinville foi arrancada à mata, esculpida quase no pântano,
moldada à semelhança de seus pioneiros. Homens, mulheres e
crianças destinados à aventura. Ensaiaram a modernidade, a
partir de suas inacreditáveis esperanças. Pessoas que não
tinham medo, por isto habitaram o inacessível e fecundaram o improvável.
Por um longo tempo, homens quase rudes tiveram a invencível ousadia
de cultivar sonhos. Tínhamos, então, um projeto de esperança.
E a colônia se fez cidade. Deixou-se ocupar pela modernidade. O que
o fértil século 19 inventou na Europa ou nos Estados Unidos,
rapidamente instalou-se aqui. Água encanada, iluminação,
pavimentação, telefone, automóveis e máquina
de escrever.
A escritura da história foi feita, até quase antes do holocausto
da grande guerra, da colônia à cidade, como um desafio ininterrupto
e inarredável. Os joinvilenses construíram muito mais do que
uma cidade, esculpiram um modo de viver. Empreendedores sempre, cultivaram
o voluntariado como uma maneira especial de vencer desafios. Que imensa,
vertical e dramática diferença da Joinville dos começos
do século para a Joinville desse final de milênio.
JARDIM DO BRASIL
Com a civilização material, com o ícone da industrialização,
poluímos tudo. Da paisagem virginal ao espírito de solidariedade,
do valor humanístico da entre-ajuda, da participação
comunitária, Joinville produziu sólidas demonstrações
de competência. Não só na construção do
patrimônio material, mas notadamente na edificação do
espiritual. Não apenas na disciplinada conquista da segurança
material de muitos, mas também na intraduzível realização
espiritual de tantos.
As gerações passadas conseguiram urbanizar o mangue. Semear
riquezas. Gerar empregos. Conquistar e cultivar a natureza. Tínhamos
jardins e flores, como reconhecido pelo presidente Afonso Pena, em 1906:
"Joinville é o jardim do Brasil". Estávamos no começo
do século, talvez numa <I>belle époque<I> tardia.
Ainda no centenário, há 46 anos, tínhamos traços
civilizatórios de Primeiro Mundo. Uma cidade habitável, integralmente
habitada. Tínhamos um sentido de destino, um compromisso com o futuro,
um sonho coletivo de realização.
Depois, nos deixamos barbarizar pela modernidade. Agora já somos
antigos. Precocemente envelhecidos pelo niilismo da novidade. Perdemos o
sentido da história, como profetizado pelos pensadores da Europa-mãe.
A industrialização está nos custando um preço
exorbitante, está nos roubando a alma. Joinville é uma cidade
ocupada pelo desamparo, perdendo a memória de sua geografia, colonizada
pelos despossuídos da modernidade.
O desafio do século 21, nesta travessia para a madurez urbana,
é o desafio do resgate da nossa identidade de cidade bem-sucedida.
Precisamos nos reunir, como os antigos, na recuperação da
qualidade de vida. Precisamos de um projeto coletivo. À moda da velha
matriz de onde nos originamos quase todos, pois, afinal, os brasileiros
são, antes de tudo, europeus em quase tudo, ainda que africanos na
música e na alegria. Precisamos de uma nova esperança. De
uma aliança com o futuro, reinventando o pacto dos colonizadores
de 1851.

Visionários unidos pela loucura
No entardecer do 9 de março de 1851, homens exaustos, física
e psicologicamente, inauguraram o futuro dançando e comendo, num
ritual de posse da terra. Eles, os 118, de rostos desconhecidos e de línguas
diferentes, num prenúncio da multiplicidade do que seríamos
quase um século e meio depois, estavam possuídos de uma mesma
loucura. Como disse Erasmo, ainda na Renascença, "as pessoas
se unem em amizade através de suas loucuras".
Em diferentes outros momentos, como agora, Joinville precisou enfrentar
situações críticas. E as superou, inegavelmente. O
desafio de agora é o de reinventar a loucura capaz de nos reunir
no coletivo, reconquistando memória e identidade.
O desafio de Joinville não é só o de recuperar o
Cachoeira, que deve se transformar num símbolo e num aviso, mas também
o de recuperar a identidade de si mesma. Reinstaurar o espírito do
lugar. Recuperar a memória de si mesma, do que fomos e do que realizamos.
As cidades, como as pessoas, são organismos que cumprem ciclos
biológicos. Somos um corpo, com milhares de artérias, algumas,
agora, congestionadas. Respiramos com dificuldades. Dormimos aos sobressaltos.
Pesadelos irrompem, explodem, provocam tumultos. Mas precisamos usar a tecnologia
da modernidade para nos restaurar.
Precisamos, com urgência, de um projeto coletivo. A ponte para
o futuro, inapelavelmente, passa pela reinstauração do sentimento
de respeito e orgulho pela nossa cidade. De confiança de que seremos
capazes de cumprir a nossa parte. De vencer o desafio presente da recuperação
de nossa identidade.
PROJETO DE ESPERANÇA
É possível até que já tenhamos o projeto.
É razoável supor que a consciência de nossas fraquezas
já seja um passo em direção do que perdemos. E me refiro,
claro, à qualidade de vida, ao bem-estar, ao patrimônio coletivo
da posse repartida. Humanizar a cidade, desfavelar a periferia, recuperar
o sentido da história, da estética e da utopia.
Um desafio que passa por diferentes dimensões, ou por diferentes
valores. De um sentido ético na política comunal. De revalorização
das nossas tradições, de consideração com os
que criam nas artes, na cultura, no espiritual. De integração,
como já tivemos, entre o capital e o trabalho. De altruísmo
e de coragem comunitária dos que detêm o capital. Sem marketing
fajuto, modernosamente mentiroso. De compromisso real, claro e objetivo,
e não só para efeitos de mídia e de retórica.
Joinville deve investir num projeto de esperança. De reconstrução
de sua identidade e de sua dignidade. Precisamos partilhar e compartilhar.
Participar e cobrar, vigiar e semear. Os habitantes de uma cidade bem-sucedida
devem ser cúmplices de seus ideais. Esta é uma lição
que o passado nos possibilita, pois foi assim que Joinville construiu sua
trajetória.
Lembremo-nos de homens intrépidos, como inspirados idealistas
que construíram suas histórias. Do filósofo Ottokar
Doerfell. Do padre Carlos Boergshausen. Do pastor Hoezel. Do jornalista
Crispim Mira. Do tecelão Döhler. Do industrial Wetzel. Do empreendedor
Schneider. Do líder comunitário August Lepper. Do político
Carlos Gomes de Oliveira. Do administrador João Colin. Do médico
dr. Bachmann. Do bombeiro Heinzelman. Da educadora Ana Maria Harger. Enfim,
de uma imensa galeria de líderes-construtores.
Assim como somos feitos de matéria e espírito, precisamos
reencontrar a alma da nossa cidade. Não somos uma coleção
de prédios ou um aglomerado de casas. Somos uma cidade, habitada
por uma energia positiva, realizadora e capaz. O espírito de Joinville
detém um sentido de futuro. Precisamos apreendê-lo e reinventá-lo
segundo as exigências do nosso tempo. O tempo nosso, de hoje, nos
impõe o resgate de nossa identidade. Joinville precisa pensar num
projeto de auto-apropriação. Ou seja, de apropriação
de si mesma. Precisamos conhecer o que já fomos e fizemos, justamente
para construir o presente com a competência que o futuro nos exige.
Apolinário Ternes é historiador e jornalista
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IMAGENS HISTÓRICAS
1 4 6 anos

Alagamento no centro de Joinville, desde 1948
Estratégias e
apostas de um
político conciliador

Empresário e ex-prefeito Baltazar Buschle
Claudio Loetz
RepÓrter de Economia
O empresário Baltasar Buschle, 78 anos, foi prefeito de Joinville por dois anos (1958-60), período em que teve forte oposição. Protagonizou um dos episódios mais dramáticos da vida política joinvilense logo nos primeiros meses de gestão. Eleito pelo PRP, com apoio do PSD e do PTB, colocou o cargo à disposição para, em troca, o Governo do Estado, repassar à Prefeitura os valores correspondentes aos tributos a que tinha direito conforme determinava a legislação - e eram negados.
A crise decorrente do gesto do prefeito só foi desfeita
com o recuo do Governo, também do PRP, que tinha apoio da UDN
em nível estadual. Buschle sabia que teria o apoio de outros prefeitos,
até mesmo do partido do Governo. Eles passavam por situação
semelhante. "Não tinha escolha", relembra Buschle. "Precisava
criar fato político novo e estava amparado no apoio popular conquistado
recentemente nas urnas. Sem os recursos dos tributos, a Prefeitura não
podia pagar nem os salários do funcionalismo", acrescenta.
Sem fantasmas
O prefeito não desconhecia que por trás do comportamento
do Governo estavam os udenistas joinvilenses inconformados com a derrota.
Quem eram? O jeito conciliador e pacato de Baltasar o impede de dizer. "É
para não ressuscitar fantasmas", afirma, sorrindo. A história
registra: um dos adversários políticos daquele tempo - e ainda
militante hoje - era Nilson Bender. Que, aliás, viria a ser prefeito
do município nos anos 60, e que certamente não concordava com tais procedimentos.
A oposição dos udenistas, que governaram Joinville
durante os 15 anos precedentes à administração de Baltasar
Buschle, continuou persistente. Nos dois anos, Buschle administrou com minoria
na Câmara de Vereadores. "Tive de decretar o orçamento
para 1959 porque a Câmara recusava-se a aprová-lo", recorda.
Naquele tempo, o prefeito tinha poderes para agir assim nestes casos.
O pleito que o elegeu, em 1958, foi necessário porque
João Colin morreu antes da metade de seu mandato. Nestas circunstâncias,
a lei eleitoral da época exigia convocação de nova
eleição. Para Buschle, a política "foi um grande
aprendizado que colocou à prova a honestidade de propósitos
e a capacidade de respeitar os cidadãos que nos escolheram",
comenta, 37 anos depois.
Cidadão benemérito de Joinville, Baltasar Buschle,
nascido há 78 anos em São Bento do Sul, tem saudades de tempos
idos. "Até a década de 70 Joinville era uma cidade tranqüila,
gostosa, sem os atropelos de hoje. Mas será sempre um município
líder porque tem boas escolas estabelecidas e o perfil médio
de sua população é de gente com alta qualificação",
observa.
Interurbano era
exercício de paciência
Um pol
A primeira empresa de telecomunicações a funcionar em Joinville
foi a Companhia Telefônica Catarinense, já perto da metade
deste século. Os empecilhos de ordem técnica para se conseguir
uma ligação e falar com alguém em outras cidades era
tão grande que muitos preferiam fazer os contatos pessoalmente, apesar
de ser igualmente demorado por causa das péssimas condições
das estradas.
Quem se aventurava a utilizar o serviço telefônico
tinha de ter muita paciência. Baltasar Buschle conta: "No início,
a precariedade do serviço era enorme. Se alguém queria falar
de Joinville para Florianópolis era necessário pedir a ligação
com 24 horas de antecedência".
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