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Uma colônia povoada
por teutos, lusos enegros
Apesasar da barreira do idioma, interesses e dificuldades acabaram aproximando
os povos que formaram a cultura da região
João Francisco da Silva
Chefe de reportagem do AN Cidade
Quando os imigrantes alemães chegaram nas terras
escolhidas para fundação de Joinville certamente encontraram
um lugar selvagem e hostil para os padrões europeus de civilização.
Mas a região estava longe de ser despovoada do elemento branco. Os
alemães se instalaram na margem direita do rio Cachoeira porque os
terrenos da esquerda pertenciam a dezenas de famílias de descendentes
de portugueses. A região do morro do Boa Vista era propriedade de
Agostinho Cercal e, como atestam os desenhos da época, boa parte
dele estava cultivada.
O historiador Carlos Ficker, apoiado por farta documentação,
relaciona em seu livro "História de Joinville"- publicado
em 1965 com apoio do então prefeito Helmut Fallgatter e da Fundição
Tupy - muitas das famílias de origem portuguesa e suas propriedades
onde hoje está o município de Joinville.
Na região do rio Três Barras, o povoamento era maior, conforme
prova a igreja então existente e cujas ruínas ainda permaneciam
em pé na década de 80. O coronel Vieira vivia no Bucarein
deste 1826, com fazendas e muitos escravos. E foram os negros do coronel
quem transportaram até o ponto de recepção, em barcos
a remos, os passageiros da barca Colon.
Embora por força de lei os imigrantes europeus estivessem proibidos
de terem ou empregarem escravos, os negros eram vistos freqüentemente
na vila a serviço de seus senhores lusos ou "emprestados"
aos imigrantes. Inácia, uma escrava, após a libertação
entrou no século 20 como requisitada parteira que mesmo idosa sempre
tinha nos seios, o leite abundante para amamentar os filhos de mães
impossibilitadas de fazê-lo. Inácia faleceu na década
de 20 respeitada por lusos e teutos. Os lusos, caboclos e negros ensinaram
aos imigrantes os segredos da terra, das plantas, dos bichos, das matas,
dos rios e das aves. Embora a língua se constituísse em barreira,
estes povos se aproximaram pelos interesses e dificuldades. Mas sempre procuraram
manter as individualidades. Assim, desde o início o sul de Joinville
e o Iririú já estavam ocupados por brasileiros natos. Ainda
hoje é possível perceber indícios claros desta separação.
Mulher emancipada pouco
ligava para o moral da época
Nos primórdios da história joinvilense emerge uma figura
fascinante. Trata-se de Julie Engell. O escritor Theodor Rodowicz-Oswiecimsky,
em seu livro "Die Colonie Dona Francisca", editado em Hamburgo
em 1853, refere-se a ela como "amásia" do engenheiro Guenther.
Na verdade, os poucos elementos disponíveis sobre esta mulher descrevem-na
como culta e decidida.
Ela é apontada como a autora dos minuciosos desenhos dos ranchos
construídos para abrigar os futuros imigrantes e que ilustram a primeira
publicação sobre a colônia, na "Leipziger Illustrierte
Zeitung", em 3 de maio de 1851. Julie teve coragem de assumir sua relação
fora do casamento com o engenheiro Guenther numa época em que isto
era condenável em qualquer sociedade e inaceitável para a
moral protestante que predominava na Alemanha.
A demissão do engenheiro Guenther por Eduard Schroeder é
atribuída por pesquisadores ao seu relacionamento com Julie. Em fevereiro
do ano seguinte o casal se instala até 1956 no Rio de Janeiro com
armazém de secos e molhados e depois retorna à Alemanha onde
Julie publicou seis livros. O historiador Adolfo Bernardo Schneider conseguiu
cópia de cinco deles em bibliotecas americanas.

SEM DISCRIMINAÇÃO
Assim como Guenther, muitos dos primeiros imigrantes desistiram do projeto.
Mas outros foram chegando sempre em maior número. Navios sucessivos
aportavam com mais pioneiros. Comunicações foram abertas com
a colônia fundada por Hermann Blumenau no Vale do Itajaí. Lotes
eram distribuídos e se abriam estradas em direção da
serra do mar.
Em 1853, a colônia registrava 27 nascimentos contra 24 falecimentos.
O número de moradores alemães era de 757. No centro da vila
existiam 26 casas habitadas e quatro em construção. Na área
rural os domicílios somavam 134. O relatório apresentava duas
fábricas de cigarros, uma olaria, uma fábrica de louças
de barro, dois engenhos de arroz, um engenho de mandioca, duas moendas de
milho, dois engenhos de açúcar e três padarias. A comunidade
tinha duas escolas em funcionamento.
Naquele ano chegava Johan Gottfried Stein que - conforme o historiador
Adolfo Bernardo Schneider - tinha nome de judeu, mas que eram bem alemão
e iniciava aqui uma das famílias mais tradicionais da cidade. A questão
judaica em Joinville sempre foi bem diferente do que ocorria na Europa.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os joinvilenses assistiram filmes no cine
do judeu holandês Van Biener que funcionava no Salão Berner
em casarão. Outros, ligados a joalherias, chegaram à cidade
e aqui ficaram como artífices do construção do progresso
joinvilense. Discriminação não existiu nem nos momentos
mais acesos do conflito mundial. (JFS)

Guera causou rivalidade na região
As duas guerras marcaram decisivamente Joinville, da mesma forma que
a Blumenau, Jaraguá do Sul e outras cidades de colonização
alemã. No setor cultural registrou desestímulo nunca mais
recuperado. Joinville saiu da primeira guerra com algumas cicatrizes. A
animosidade entre os brasileiros teutos e lusos nunca mais refluiria completamente.
Mas na década de 30 a colônia alemã registrava intensa
programação cultural, compondo e montando a opereta "Irmãs
Gêmeas" e a ópera "Iara". Encenada em idioma
alemão, Iara possivelmente foi a primeira ópera que teve sua
estréia no Brasil. O Guarani, na qual se inspirou, estreiou na Itália.
Um dos projetos de campanha do prefeito Luiz Henrique é resgatar
e fazer encenar esta obra que ele considera como símbolo de uma época.
Este tempo terminou com o que pode ser classificado como o mais cruel
regime de apartheid. O programa de nacionalização de Getúlio
Vargas proibia o idioma nas escolas, forçando a liquidação
de dezenas de estabelecimentos que se constituíam a única
possibilidade de ensino na área rural e que eram mantidos pela iniciativa
privada. Com a guerra, a língua de Goethe foi proibida até
na intimidade da cama dos casais. Quem fosse denunciado era preso. O exército
tinha autorização para espancar o infrator. Bibliotecas de
clubes, escolas e residências foram confiscadas e queimadas.
O historiador Schneider lamenta: "Nossa gente não podia cantar,
falar e rezar no único idioma que sabiam. Até os túmulos
dos mortos estavam sob censura. As inscrições não podiam
ser em alemão". A guerra ensinou a Joinville e aos joinvilenses
a pouco esperarem de governos estaduais e federais, mas também criou
um isolamentos e desconfianças que ainda persistem. (JFS)
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IMAGENS HISTÓRICAS
1 4 6 anos

A então Miss Brasil Vera Fischer, dando o pontapé inicial
numa partida de decisão do Compeonato Catarinense de 1969, entre
Caxias e Ferroviária, hoje Criciúma
Paixão por futebol
gera obras de
esporte e lazer
Roberto Dias Borba
Repórter de Esportes
O tiro ao alvo e a ginástica foram os primeiros esportes praticados
pelos imigrantes, mas só o futebol conseguiu exercer um fascínio
inexplicável sobre os joinvilenses a partir do início deste
século. Alfonso Schützler, um descendente dos fundadores da
cidade, trouxe no sangue esta paixão que transformou o futebol como
referência esportiva.
A paixão pelo futebol, para Alfonso Schützler, não
ficou resumida a alguns chutes na bola e muito menos ao acompanhamento dos
jogos. Entrou em campo aos 11 anos para uma simples brincadeira de criança
e daí para frente percorreu todos os caminhos que comprovam a estreita
ligação que o futebol tem com o cidadão comum e que
o transformaram num empreendedor e ao mesmo tempo realizador de sonhos com
importantes obras nas áreas do esporte e lazer.
Aos 79 anos, satisfeito pelas circunstâncias que o esporte proporcionou
em sua trajetória como empresário e homem público,
Alfonso Schützler faz uma viagem no tempo em alguns instantes para
relembrar as fases que acompanhou no esporte de Joinville, especialmente
o futebol. O retrospecto de uma vida de trabalho traz o saldo de obras como
a arquibancada do Ernestão e as instalações da Expoville,
além de participar na fundação e atuar como atleta
de clubes como o Cruzeiro do Sul, em Joinville, e o Tupi, em Gaspar.
Até os 11 anos viveu na Corveta, na época pertencente
a Joinville e que agora faz parte do território de Araquari, onde
aprendeu a lidar com o trabalho da roça, além de ter um bom
tempo para conviver com ar livre e os pássaros. Um verdadeiro sacerdócio
transmitido pelos avós Augusto e Augusta Burger, dois imigrantes
que chegaram à região na barca Colon. O garoto foi buscar
na cidade os horizontes que almejava. A pá e a enxada foram deixadas
de lado para assumir seu primeiro emprego na cidade: vendedor do jornal
A Notícia.
Para conseguir o salário mensal de 20 mil réis e mais
um jornal de graça era preciso andar todos os dias o percurso que
iniciava na rua Abdon Batista (o endereço do jornal na época)
e terminava na estação ferroviária. O retorno era a
melhor parte do trajeto porque representava o encontro com os amigos para
jogar futebol.
Coincidências à parte, o local para a reunião era
o pasto da família Schlemm e que mais tarde seria transformado no
estádio do Caxias, clube que Schützler presidiu e ajudou a construir
a arquibancada. O gosto pelo futebol fez Schützler correr por vários
campos que foram desaparecendo com o crescimento da cidade. A memória
ajuda a lembrar dos jogos no campo da rua Santos - perto do Moinho - e em
especial no primeiro estádio do Caxias, que existia onde atualmente
está o hotel Tannenhof.
O futebol sempre representou a predileção esportiva, mas
Alfonso Schützler ampliou o leque de modalidades. Ao mesmo tempo em
que desfilava seu vigor físico como beque nos aspirantes do Caxias
e mais tarde nas empresas onde trabalhou, entre elas a Madeireira Brand
e Stein, foi remador do quatro com do Cachoeira e jogador de vôlei
no Ginástico.
ORGULHO CAXIENSE
O preto e branco do Caxias Futebol Clube é uma tradição
insubstituível. O beque do time aspirante conseguiu preservar esta
magia. Como jogador, cuidou de melhorar seu desempenho, e para isso contou
com a ajuda do treinador Alcindo Maia. Para Schützler, Maia foi o melhor
de todos que passaram por esta função. Não apenas por
ter ajudado a chutar também com o pé esquerdo, mas pela maneira
que conseguia harmonizar o trabalho com as equipes principal e de aspirantes,
além dos conhecimentos que tinha.
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