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Exemplo vivo de
dignidade na atividade política
Dimitri do Valle
Repórter de Política
Ele é chamado de patrimônio vivo da política catarinense.
O dono do nobre título caminha para completar 103 anos de idade em
setembro. Os mais íntimos desconsideram as apresentações
e vêem em Carlos Gomes de Oliveira um dos últimos remanescentes
da genuína safra de homens públicos do País. Advogado,
jornalista, vereador, prefeito, deputado, secretário de Estado e
senador. Com todo esse currículo, pergunta-se quais são as
conclusões de um dos cidadãos joinvilenses que mais respeito
e notoriedade conquistou pelo Brasil afora.
O próprio Carlos Gomes responde. "Abandonei a política
sem desencanto nenhum. Não tenho do que me queixar. Nunca fui ambicioso.
Foram as próprias contingências da vida que me levaram a ser
aquilo, nunca pleiteei. Por isto estou em paz comigo e com o mundo",
afirmou, em depoimento concedido ao jornalista Raul Caldas Filho em outubro
de 1977. Se o período pós-vida pública é repleto
de sossego, Carlos Gomes deve o seu ingresso na política a um polêmico
artigo escrito num periódico - "Jornal de Joinville" -
que ajudara a fundar. O texto elogiava o levante do Forte de Copacabana,
em 1922, comandado por tenentes do Exército revoltados com os desmandos
do então presidente Arthur Bernardes.
Foi o estopim para que a opinião chegasse às mãos
do presidente da República. Carlos Gomes e seu primo, Plácido
Gomes de Oliveira, foram levados para o Rio de Janeiro, permanecendo encarcerados
por 20 dias com dezenas de outros presos políticos. No retorno a
Joinville, Plácido e Carlos Gomes receberam calorosa recepção.
O ato representou o início da trajetória de Carlos nas discussões
políticas. No único partido autorizado para época,
o Republicano, foi chamado para integrar o secretariado do prefeito Abdon
Batista.
A partir de 1924, com a posse de Adolfo Konder no governo do Estado,
Carlos Gomes foi nomeado chefe-escolar da região e exigiu recursos
para dar as mínimas condições de estudo aos alunos
- cadernos e lápis. O político também passou pela Câmara
de Vereadores, chamada na época de Conselho Consultivo Municipal,
e em 1927 exerceu o cargo de prefeito nos meses de setembro e outubro. Naquele
período assinou resolução que reconhece a Associação
Comercial e Industrial de Joinville como entidade de utilidade pública.
Um ano depois elegia-se deputado estadual. A partir de 1933, Carlos Gomes
passou a ser um dos quatro representantes catarinenses na Assembléia
Nacional Constituinte.
PERTO DE GETÚLIO
Em 1934, conseguiu incluir na nova Constituição Federal
um artigo determinando que o ensino primário deveria ser ministrado
em língua portuguesa. "Hoje vejo com satisfação
que entre os descendentes de brasileiros, os caboclos e os descendentes
de alemães, não existe mais discriminação, pois
à época havia muita rivalidade", afirma Carlos Gomes.
Próximo do poder, o joinvilense assume pela segunda vez, em janeiro
de 1935, seu segundo mandato na Câmara Federal. O fato acabou estreitando
os laços de amizade de Carlos Gomes com grandes personalidades da
área jurídica do País e com o então presidente
Getúlio Vargas, que comandava o Brasil com mão-de-ferro.
Nova surpresa na trajetória política de Carlos. Getúlio
Vargas decreta o fechamento do Congresso em novembro de 1937 e resta a Carlos
aceitar convite do governador Nereu Ramos para chefiar o Departamento das
Municipalidades, órgão destinado a negociar a implantação
de melhorias urbanas, tais como sistemas de água, construção
de pontes e estradas. Veio 1938 e a campanha de nacionalização,
que proibia o uso da língua alemã. Em carta endereçada
ao responsável pelo projeto, general Meira de Vasconcelos, Carlos
Gomes destacou a importância da aproximação com os descendentes
dos imigrantes germânicos.
"Entendo que devemos encarar com atitude simpática as populações
germânicas, na sua massa, procurando integrá-las na vida brasileira
mais por processos educativos, pois o seu germanismo não é
mais do que uma tendência natural", observava. Em nova correspondência,
desta vez a Nereu Ramos, Carlos Gomes citando as perseguições
aos descendentes da colônia através da campanha de nacionalizacão.
"Precisamos, porém acautelar-nos aos exageros contraproducentes",
alertava o político sobre os efeitos provocados pela campanha patrocinada
por Getúlio.
DESCANSO NO LITORAL
Depois de dirigir o Instituto Nacional do Mate, a convite de Getúlio
Vargas, e ser secretário estadual de Interior, Justiça e Educação,
Carlos Gomes lançou-se a uma empreitada mais ousada a partir de 1950:
candidatou-se ao governo do Estado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB),
fundado por Getúlio. Carlos Gomes de Oliveira renunciou, mais tarde,
à candidatura e lançou seu nome ao Senado, num acordo entre
o PTB e a UDN, de Irineu Bornhausen, eleito mais tarde governador do Estado.
Na época, o joinvilense lutou contra Getúlio Vargas, que veio
a Florianópolis para apoiar Nereu Ramos ao Senado.
Carlos Gomes fez mais de 400 discursos nos oito anos (1952 a 1960) em
que permaneceu no Senado, abordando os mais variados temas nacionais. Seguia
uma linha que abordava o ensino, o trabalhismo e as relações
entre patrões e empregados. Defensor de escolas agrícolas,
o senador, como é carinhosamente chamado, empresta o nome a uma instituição
similar localizada no município de Araquari, a 20 quilômetros
de Joinville. Ao participar da delegação brasileira que fez
parte da Assembléia Geral da Organização das Nações
Unidas (ONU), Carlos Gomes ficou impressionado com o surgimento das primeiras
transmissões em cores, nas redes de tevê, e com o lançamento
do primeiro satélite artificial russo, o Sputnik.
O político joinvilense ainda tentou a reeleição
ao Senado, mas foi derrotado por Irineu Bornhausen. Em 1960, fez dobradinha
com a UDN de Irineu, enquanto outra corrente de petebistas apoiava a candidatura
de Celso Ramos. Foi a última vez que Carlos Gomes subiu em palanques
para disputar eleições. "Comecei a ficar cansado da política
(já estava com 66 anos). Isto é, não exatamente da
política, que é algo inerente a todos nós, mas da prática
política. Acabei então vindo embora para Joinville e Barra
Velha e gozar da minha modesta aposentadoria". Carlos Gomes se aposentou
como consultor-geral do Estado.

Uma testemunha da história e suas recordações
Pesquisador apaixonado da trajetória
da Colônia Dona Francisca, Adolfo Bernardo Schneider acredita que
índios da região descendiam dos nórdicos
João Francisco da Silva
Chefe de Reportagem do AN Cidade
Sentando em uma imensa poltrona surrada pelo uso, um homem olha por sobre
os 91 anos de sua vida e conclui que esteve sozinho na maior parte deles.
E sempre tentando se adaptar às mudanças impostas pelos acontecimentos.
O homem é Adolfo Bernardo Schneider, filho de imigrantes e pesquisador
apaixonado da história da fundação da Colônia
Dona Francisca, de onde floresceram cidades como Joinville, São Bento
do Sul, Campo Alegre, Rio Negrinho, Jaraguá do Sul, Corupá,
Guaramirim e Schroeder. Tem algumas teorias sobre os primitivos moradores
da região, que ele crê descenderem de navegadores nórdicos
que tinham passado por aqui muitos séculos antes. "Por isto
nossos índios eram mais pálidos e mais dóceis. Foram
todos capturados pelos paulistas e suas terras ocupadas pelos índios
ferozes que os imigrantes encontraram", acredita
Mas o homem que passa os dias de sua velhice pesquisando documentos do
passado joinvilense é ele mesmo testemunha da maior parte da história
da cidade fundada em 9 de março de 1851 e na ele sua família
cumpriram destacado papel. A própria vida de Adolfo foi submetida
a guinadas fantásticas ao longo de quase um século, a ponto
de ele se definir como uma pessoa que passou a existência se adaptando.
"Pareço estar condenado a estar sempre só", lamenta.
Olha pela janela da casa oculta no meio de imenso arvoredo na rua Tijucas
e se emociona.
O historiador tem dificuldades em falar de suas lembranças, embora
tenha quatro livros publicados onde mistura crônicas, história
e algumas memórias infantis. As mais antigas lembranças que
tem da cidade o remetem a 1911, quando pescadores chegavam pelo rio Cachoeira
e levavam as canoas pelos canais de drenagem até a rua do Príncipe
e ali ofereciam os pescados. Onde hoje situa-se a Travessa Bachmann existia
um brejo alagado pelas marés. Ali ele capturou pequenos peixinhos
para povoar um aquário importado pelo pai.
Lembra de histórias daqueles tempos. Ao relatar um destes casos
prefere manter os envolvidos no anonimato. Conta que um importador recebeu
uma partida de trigo em barricas. Uma delas, marcada com um discreto X,
continha carga especial. Os empregados, seguindo um costume daqueles tempos
anteriores ao telefone, saíram a comunicar aos padeiros da cidade
a chegada do trigo. No dia seguinte, ao procurar a barrica marcada, o importador
desesperou-se ao descobrir que tinha sido vendida em meio às outras.
Algum tempo depois, um dos padeiros passou a demonstrar sinais de enriquecimento
e, aos que perguntavam, dizia ter ganho na loteria. Apenas o importador
sabia que a origem da súbita fortuna estava no fundo falso da barrica
repleto de dinheiro falso que ele pretendia fazer circular. E não
podia denunciar o novo falsário, porque aquele certamente informaria
às autoridades a procedência do dinheiro.
PORTUGUÊS AOS 15 ANOS
Nascido de família rica Adolfo, estudou na Escola Alemã
(hoje Colégio bom Jesus) e contato com o idioma português só
foi ter aos 15 anos, quando chegou em Florianópolis para cursar o
secundário no Colégio Catarinense. "Foi uma mudança
brutal. Ali também vi a força dos ódios que a guerra
produz. Pessoas em fúria depredaram o clube tiro alemão durante
a guerra e queimaram móveis e livros na rua", relata. Adolfo
voltou para Joinville em 1923. Teve de readaptar-se aos costumes familiares
e novamente ao idioma alemão.
Em 24 seguiu para Hamburgo, na Alemanha, para cursar a Escola de Comércio.
"Descobri outro mundo e mesmo o alemão que eles falavam já
era outro. Nova adaptação difícil. Mas fui ficando.
Namorei e casei com Gretchen Meinke. Em 29, com a queda da bolsa de Nova
Iorque e a crise mundial, viemos todos para o Brasil", recorda.
Aqui, Adolfo veio se juntar à família em nova readaptação
e integrou-se aos negócios do pai. Comprou a sorveteria Polar para
esposa e familiares dela. Nasceu a filha Eva Maria e Joinville crescia aceleradamente.
Mas o sogro morreu e em 38 começaram as hostilidades contra a família,
que costumava ouvir no rádio o noticiário alemão e
os discursos de Hitler. Em 39 a sogra desejou voltar à Alemanha.
A esposa e a filha a acompanharam. Foram surpreendidas pela guerra e a família
voltou a se reunir apenas sete anos depois. "Sofri muito naqueles tempos,
quando se praticou no Brasil contra os teutos um <I>apartheid<I>
pior que o praticada na África do Sul", reclama Adolfo.
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IMAGENS HISTÓRICAS
1 4 6 anos

Rio Cachoeira, por onde os primeiros moradores chegaram, é hoje um
canal poluído
O ex-marinheiro
que dominava o
rio Cachoeira
Luis Fernando Assunção
Repórter do AN Cidade
O olhar perdido do marinheiro aposentado Raul Pinto Ferreira, 70 anos,
diante do que um dia foi um dos portos mais movimentados da região
vale por muitas palavras. Por ali Raul comandou barcos com a destreza de
um capitão-de-fragata a singrar o Cachoeira caudaloso, via de ligação
com o comércio marítimo do mundo. Tantas vezes Raul era visto
levando madeiras de lei de Joinville até o porto de São Francisco
do Sul, de onde eram transportadas por mar até Johannesburgo, na
África do Sul. Ou comandando navios da região abarrotados
de trigo do Moinho Joinvilense para o porto de Santos ou trazendo ferro
gusa direto da Companhia Siderúrgica Nacional para a metalúrgica
Tupy. Tudo guardado na memória do velho marujo que agora limita-se
a observar a agonia do rio poluído que um dia lhe serviu de sustento.
Década de 30. O comércio madeireiro na região alavancava
o crescimento da cidade. Ponto de concentração das maiores
empresas de compra e venda de madeiras, o bairro Bucarein passou a ser alternativa
para o afogado cais do porto de Joinville, já com sinais de saturação.
Instalado ao lado do porto, o Moinho Joinvilense enviava trigo para todas
as regiões do Brasil. Foi nessa época que a família
Sizak percebeu o filão que começava a surgir: a navegação
comercial de pequena cabotagem. Em 1937, um ano antes do começo da
2ª Guerra Mundial, surgia uma das primeiras embarcações
para fins comerciais na cidade, o barco Ramos. Com capacidade para até
13 tripulantes, o barco foi o precursor de um comércio que só
cresceria a partir dali.
Com o começo da guerra, a navegação fluvial ganhou
ainda mais importância. Além de difícil, o acesso das
mercadorias por terra tornava-se perigoso, e a solução barata
e eficiente era o transporte por água. E foi durante a década
de 40 que a navegação de pequena cabotagem teve o maior crescimento
na cidade. "A partir daí surgiram outros barcos, novas opções
de transporte pelo rio até o mar. O comércio naval estava
crescendo", recorda Ferreira. Os agenciadores da família Sizak
perceberam esse crescimento e construíram em seguida mais duas embarcações,
feitas nos estaleiros de Itajaí: o Urbano e o Boa Vista. Esses barcos
acostumaram-se a levar para o Rio de Janeiro esquadrilhas, madeiras e trigos
de Joinville. Traziam gasolina, ferro gusa.
Mas foi na década de 50 a maior investida dos Sizak no comércio
naval. Com um investimento elevado, os Sizak encomendaram da Alemanha um
dos mais modernos barcos de ferro da época, construído especialmente
para a navegação em águas rasas como as do Cachoeira.
O Catarina, como ficou conhecido o barco, até hoje povoa lembranças
dos antigos que caminhavam até o porto para o ritual de um passeio
em seu interior. "Foi um marco para a navegação da região.
Era uma novidade um navio de ferro, já que as embarcações
na região eram todas feitas de madeira", conta Ferreira, que
chegou a comandante do Catarina. O rio Cachoeira suportava um calado de
3,6 metros, exatamente o que o Catarina apresentava. "Era de pequeno
calado, chamado fundo de prato", explica o ex-marinheiro. Os canos
para as primeiras tubulações de água da cidade, adquiridos
da empresa mineira Mannesmann, vieram nos porões do navio.
Português navegador
O Catarina transportou cargas e ajudou no desenvolvimento da região,
assim como o comandante Ferreira. Filho de marujos acostumados a navegar
em veleiros, Ferreira começou aos sete anos a desafiar o mar, em
Piçarras, junto com o pai. Em Joinville estabeleceu-se em 1946, e
sete anos depois casou-se com uma moça da cidade, que conheceu no
porto do Bucarein. Descendente de portugueses navegadores, Ferreira acostumou-se
a transitar com veleiros entre o cais do porto de Joinville e de São
Francisco. Mesmo depois de casado, continuou viajando para o centro do País,
especialmente Santos e Rio de Janeiro, em viagens que duravam até
30 dias. Foi marujo, passou a contramestre, em seguida promovido a imediato
e depois a capitão. Comandou os barcos Boa Vista, Urbano e Catarina.
Ferreira guarda dos tempos de marujo aventuras que até hoje conta
aos quatro filhos e sete netos. Em 1961, no porto de Paranaguá, Ferreira
comandava o Boa Vista quando enfrentou um temporal na costa paranaense.
Com a embarcação repleta de ferro gusa e material bélico
para o Batalhão de Joinville, nem a experiência do capitão
foi suficiente para evitar o naufrágio. "A água entrava
pelo casco de madeira e não teve jeito", relembra. O barco permaneceu
28 dias no fundo do mar e só foi retirado com a ajuda do Catarina
e seus guindastes.
Também no salvamento da embarcação a experiência
de Ferreira foi decisiva. O escafandrista chileno responsável pela
colocação dos cabos no navio para o resgate teve seus tímpanos
estourados. Como Ferreira já tinha alguma experiência em mergulho,
aceitou o desafio. Colocou na cabeça o capacete de ferro, verificou
os canos por onde o ar iria passar e saltou para o fundo do mar. Naquele
tempo, o mergulhador precisava de macetes para sobreviver em grandes profundidades.
Assim que o ar entrava pelo cano e chegava ao escafandro, o mergulhador
precisava bater a cabeça dentro do capacete de aço para que
o ar circulasse. O sinal de "tudo certo" ou de "preciso voltar"
era dado com puxões nos cabos que levavam o escafandrista até
o fundo. "Conseguimos colocar os cabos e salvar o Boa Vista",
recorda Ferreira.
Do Catarina, das navegações no Cachoeira, do escafandro,
do mar, Ferreira jamais vai esquecer. Nem quando mexe com seus papéis
na imobiliária que comanda, no centro da cidade, consegue dissipar
totalmente da memória os tempos de timão. Afinal, dominar
uma embarcação de 45 metros de comprimento, 3,6 de calado
e com capacidade de 50 toneladas como era o Catarina não era para
qualquer um. Além disso, o capitão Ferreira tinha domínio
de uma das principais virtudes do Catarina: o barco guardava 150 toneladas
de água que eram liberadas para que o barco conseguisse sair do porto
do Bucarein. "Essa época foi muito melhor para Joinville. Houve
um surto de desenvolvimento que só foi interrompido quando os políticos
decidiram fechar o porto de Joinville e Bucarein", reclama o velho
marinheiro, enquanto observa as águas hoje paradas e poluídas
do rio Cachoeira.
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