|
Crescimento
a partir do comércio
|

Desde a fundação,
Joinville apresentou opções
de desenvolvimento
a seus moradores
Desde quando os primeiros imigrantes desceram das barcas e conheceram
a realidade que iriam enfrentar nas terras brasileiras, enfrentaram um rosário
de desafios. Um deles, o principal, de sobreviver. Com os lotes comprados,
a saída era cultivar as terras e iniciar uma agricultura de subsistência,
a primeira atividade econômica conhecida na região da recém-formada
Colônia Dona Francisca. Com o passar dos anos, o entreposto comercial
se fortaleceu, com a importação e exportação
de mercadoria via rio Cachoeira e Porto de São Francisco. A cidade
começava a definir sua linha de desenvolvimento econômico e
social a partir do fortalecimento do comércio, da venda e compra
de artigos locais e recebidos de fora.
A primeira venda em Joinville teria surgido em 1852. Seria o primeiro
lugar para a venda e armazenamento num local conhecido como Águas
Vermelhas. O negociante Gustav Mueller estabeleceu-se no lugar e arrendou
o empório de secos e molhados. Em carta a seus familiares em Hamburgo,
datada de 20 de janeiro de 1853, Mueller conta como enfrentou os primeiros
desafios de ter um comércio na região. "Arrendei o meu
chão desde novembro e mudei para um local afastado duas horas e meia
de Joinville e perto da serra azulada, chamada serra de Coritiba. Já
se estabeleceram muitos colonos neste lugar e sendo muito afastado de Joinville,
arrendei o armazém e mando vir os mantimentos e as mercadorias nos
lombos de burros".
"Os meus negócios vão muito bem. O movimento bruto
é de 250$000 por mês, com lucro de 30 a 40 por cento. Sinto
a falta de mercadorias européias, pois dariam um lucro de pelo menos
cem por cento. O queijo está a 800 réis, a manteiga a 800-1000
réis. Conforme as minhas próprias experiências, a lavoura
rende bastante para viver e ganhar algum dinheiro, apesar do trabalho imenso
no preparo do chão e desmatamento de florestas. Um morgen plantado
com cana de açúcar rende entre 190 e 200 mil réis quando
aproveitado para o fabrico de cachaça. Para o pequeno colono, a plantação
de arroz, milho, feijão e mandioca é mais recomendável".
Mueller foi, por certo, um dos primeiros empresários e analistas
econômicos da Colônia Dona Francisca.
Empórios
Os anos que se seguiram foram de plantações para dar sustento
à família e de novos empórios surgidos nos braços
da colonização ao Sul e ao Norte da colônia. Em cada
novo núcleo formado, a necessidade de estradas, novas plantações
e, claro, um local onde as mercadorias pudessem ser negociadas. E nesse
processo de desenvolvimento o trabalho dos índios, brancos e negros
já moradores da terra de Joinville foram indispensáveis para
os imigrantes europeus. Os lusos, caboclos e negros ensinaram aos imigrantes
os segredos da terra, dos animais, dos rios.
Um casamento, uma história
François Ferdinand Phillippe Louis Marie, o terceiro filho de
Louis Phillippe, Duque de Orleans, rei da França, não poderia
imaginar que estava no curso da história do Brasil. Em 1837 chegou
ao país onde se engraçou pelas princesas Januária,
17 anos, e Francisca, de 15. Ficou com a segunda e começou o namoro
que levaria ao casamento e ao dote que deu origem ao nome da cidade de Joinville.
Uma lei nacional disciplinava que as princesas brasileiras somente receberiam
dotes de terras se constituíssem residência no Brasil. Se fossem
para outro país, teriam direito à uma soma em dinheiro.
Contrariando a legislação, Francisca recebeu parte de seu
direito em moeda corrente e mais uma pequena diferença foi acertada
com uma gleba de terras na província de Santa Catarina, distrito
de São Francisco do Sul, entre os rios Três Barras e Itapocu.
Com a queda do rei francês, o príncipe acompanhou o pai para
o exílio na Inglaterra. Para contornar dificuldades financeiras,
cedeu em contrato parte das terras da esposa para a companhia colonizadora
do senador alemão Mathias Schroeder, proprietário de linhas
de navios que tinha imenso interesse no negócio do transporte de
imigrantes, lucrativo comércio disputado por holandeses, alemães
e ingleses.
Fundação
O Príncipe de Joinville encarregou seu procurador Louis François
Léonce Aubé de concluir e acompanhar a fundação
da colônia. A empresa alemã enviou o engenheiro Hermann Guenther
para escolher a área de projeto. No Rio de Janeiro, ele embarcou
para São Francisco do Sul juntamente com Aubé. Guenther estava
acompanhado por Julie Engel, com quem vivia sem formalizar união,
e mais duas famílias contratadas para a construção
de dois casarões que iriam abrigar os futuros colonizadores. Em 22
de maio de 1850, aportaram na confluência do rio Mathias com Cachoeira,
na casa do francês M. Frontin. Na primeira planta de Joinville, desenhada
em 1852 pelo engenheiro Banholzer e publicada em 53, ainda aparece a casa
de Frontin na margem direita do Cachoeira.
REFERENCIAIS
Destaque nos esportes, vida noturna agitada e patrimônio preservado:
mudança na terra das bicicletas |
 |
 |
 |
 |
|
Cultura incrementou a economia
Cinturão formado no
centro da cidade serviu de marco para arquitetura e negócios na colônia
Mais uma inauguração efetuava-se no ano de 1913.
A efervescência cultural experimentada pelos moradores de Joinville
pulverizava-se em pequeno espaço. O centro da cidade, região
limitada territorialmente, recebia mais e mais clubes e o cinturão
cultural ganharia em pouco tempo visitas de cantores líricos, peças
e espetáculos teatrais. Em 1913, por obra do empreiteiro F. Nicodemus,
foi entregue à diretoria do Club Joinville a chave do novo edifício
no dia 7 de junho. Após a conclusão dos serviços de
pintura, instalação de luz elétrica e calçamento,
estava concluído um marco na arquitetura da cidade e que chegou a
ser considerado como o prédio mais majestoso de Joinville.
A inauguração da nova sede na rua do Príncipe, esquina
da rua padre Carlos estava concretizada. O Club de Joinville, nascido em
fevereiro de 1906, por fusão com o clube Republicano e União
Joinvilense, inaugurou com sua mudança para a nova sede uma nova
era de "confraternização entre as famílias de
Joinville". O então presidente do clube, Inácio Bastos,
expressou sua satisfação "por ter feito um templo sagrado
para a paz entre os homens e a união entre as famílias".
A inauguração do edifício "mais majestoso
de Joinville" iniciou uma nova fase cultural e comercial na cidade.
Daí em diante começava o crescimento do comércio e
da indústria.
Riquezas
A construção do prédio que abrigou o Club
Joinville, em estilo eclético que emprestou alguns traços
da arquitetura neoclássica, era um exemplo claro da necessidade da
burguesia joinvilense em ostentar as riquezas conseguidas com anos de trabalho.
Isso trouxe desenvolvimento cultural e o dinheiro ganho em anos de pioneirismo
começava a surtir seus efeitos concretos. Todos ganhavam com isso.
Era época de carreira aberta e livre iniciativa para os colonos
que traziam no imaginário imagens de uma Europa rica e desenvolvida
economicamente. A cultura ganhou com isso e a partir da construção
de clubes que também serviam como teatro, os espetáculos abertos
ao público - mesmo que divididos em classes sociais que freqüentavam
clubes específicos - pipocavam na cidade. O clone da burguesia européia
do começo do século ajudava a formar a sociedade joinvilense
daqueles tempos.
Picareta maldita
Ao lado do crescimento da burguesia da época, a tristeza da demolição
de outros pontos referenciais, como o Hotel Ypiranga. A velha casa foi demolida
em agosto de 1913, deixando saudades aos boêmios politizados principalmente
de origem latina que se reuniam em longas conversas e divagações.
O jornal "Commercio de Joinville" traduziu, em um texto apaixonante
e ácido, a ação demolidora de uma cultura e determinante
de uma nova fase econômico-social da cidade:
"A demolição de uma velha casa é uma
cousa triste nessa tendencia de se aformosearem as cidades, seguindo a evolução
natural das cousas. Mas vendo desaparecer o ex-Hotel Ypiranga, eu tive saudades
dos tempos passados; era, por assim dizer, o club do bairro latino de nossa
urbs. Foram com seus tectos acaçapados que se realizaram as primeiras
manifestações do espírito associativo. Palestrava-se
na alegre intimidade de bons companheiros, em volta da mesa redonda, com
seu sofá acolchoado junto à parede lateral, o espelho ao alto,
e n'outra parede, por cima de uma commoda, o retrato dos velhos imperantes
brasileiros atestando o credo político do dono da casa. Toda a jovialidade
da vida pacata daquelles tempos teve origem nesse velho predio que a picareta
está demolindo, como que desmoronando as recordações
dos bons tempos de verdadeira e inreproduzivel cordialidade". |