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Empresas têm trajetórias opostas





Nascidas quase junto com
Joinville, Döhler e Tupy
são exemplos das mudanças
industriais nos últimos anos

Ouas histórias, dois destinos. As mudanças de perfis da indústria em Joinville nas últimas décadas estão ilustradas em exemplos do Grupo Tupy e da Döhler. As duas nasceram da teimosia de imigrantes recém-chegados à Colônia Dona Francisca e que montaram impérios geradores de emprego e renda para a cidade que cresceu. Ao contrário da confluência de suas fundações, o futuro de cada uma correu para lados opostos. A Tupy acabou vendida para grupos financeiros de fora do Estado. A Döhler permaneceu em Joinville, investiu na modernização e, apesar da falta de incentivos, insiste em fincar pé na cidade natal.

A maioria das grandes empresas instaladas em Joinville e nascidas da iniciativa de imigrantes ou moradores locais já não podem considerar-se nativas. Muitas foram vendidas para grupos de fora ou transferiram suas direções para grandes centros, como São Paulo. Casos como o da Multibrás, Tigre, que centralizaram o poder nos pontos centrais da vida financeira e econômica brasileira. O incentivo dado por outros Estados para a instalação e até transferência de empresas também foi forte aliado na mudança de lado das empresas.

A pré-história da Fundição Tupy, relatada no livro "A estratégia da Confiança", do historiador Apolinário Ternes, remonta a 1897, quando um filho de um imigrante alemão, Frederico Birckholz, instalou uma modesta oficina de consertos na rua dos Atiradores, hoje Pedro Lobo. Joinville tinha uma população de 10 mil habitantes. No ano de 1923, passam a entrar em cena Albano Schmidt e Paulo Max Keller. Surgia a Keller & Cia, outro embrião da Fundição Tupy, que tornou-se realidade depois da descoberta da liga correta para a produção de ferro maleável e com ele uma série de produtos, em 1937. Schmidt começava a trabalhar para estabelecer as bases de uma grnde fundição.

Mudança

Em 1945, um dos lances mais ousados da trajetória de uma maiores fundições do país. Albano Schmidt começou a consultar a possibilidade da transferência da Tupy para um local mais distante do centro da cidade. Convenceu-se que o novo parque industrial poderia ser instalado às margens da Lagoa de Saguaçu, no Boa Vista. Uma localização perfeita, com possibilidade de construção de um porto para transporte da produção da empresa, além de receber matéria-prima para o feitio. Assim, a Tupy passava de uma produção de 50 toneladas mensais de peças fundidas para 250 toneladas por mês.

A consolidação da Tupy na região trouxe um sopro de desenvolvimento para um dos maiores bairros de Joinville. A empresa que faz aniversário no mesmo dia da cidade também serviu para dar emprego e sustento para parte de sua população. Nas imediações da Tupy, difícil é conhecer alguém que não tenha trabalhado na empresa ou que, pelo menos, tenha um parente empregado em seus limites. Uma história estreita com a população que acabou desbotada quando a empresa foi passada para mãos externas. Atualmente mais enxuta, a Tupy é administrada por fundos de pensões e conglomerados financeiros, mas continua gerando - mesmo em menor escala - empregos na região.

Na Döhler, trajetória semelhante sem o mesmo desfecho. O imigrante Carl Gottlieb Döhler trouxe da Alemanha, em 1881, o conhecimento de tecelagem e construiu o primeiro tear da região da colônia. Nesses quase 117 anos de existência, a empresa continuou solidária com o desenvolvimento industrial apresentado. E quando o setor industrial começou a dar sinais de cansaço, a direção preferiu um outro caminho para vencer as adversidades. Investiu na modernização e correu atrás de certificados internacionais para se garantir no mercado externo, seu principal filão de vendas. "Sempre tivemos uma relação íntima com a cidade. A empresa se considera integrante da história de Joinville", confessou o diretor-presidente da empresa, Udo Döhler.

Desafio é ficar em Joinville

O desafio da Döhler agora é não fazer como a maioria das empresas fez ou está fazendo. Deixar aos poucos a terra natal em busca de locais mais vantajosos. "É um desafio continuar na cidade. Não há estímulo para isso. Já tivemos propostas para sair do Estado e não descartamos essa possibilidade. Mas nosso projeto de expansão em Joinville está mantido", revelou Döhler. A empresa gera três mil empregos diretos, tem um patrimônio de US$ 305 milhões e produz 75 milhões de metros quadrados de tecido por ano, além das 10,5 mil toneladas de fio/ano.

A empresa têxtil também participou da história da cidade, assim como a Tupy. Quando uma grande enchente destruiu Tubarão, na década de 70, a Döhler absorveu grande parte da mão-de-obra retirante daquela reigão do Estado. A surpresa é que esse pessoal, inicialmente rotulado de não-especializado, saiu-se melhor do que a encomenda.

REFERENCIAIS
Destaque nos esportes, vida noturna agitada e patrimônio preservado: mudança na terra das bicicletas

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Ensino Serviços Empresas
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Diversificação atingiu vida noturna

Noite ficou mais agitada e com mais opções para atender clientes mais exigentes

Se chegasse há 10 anos na cidade, o engenheiro alemão Bernd Reissmüller, 34 anos, certamente não teria a mesma impressão que levou de Joinville nas duas semanas que passou na região. "Gosto de sentar ao ar livre, ver pessoas. Além disso o atendimento é excelente, melhor do que na Alemanha", dizia, entusiasmado, ao lado de uma garrafa de cerveja e sentado numa das mesas do Boca de Bar, na quarta-feira passada. Um exemplo da mudança da noite na cidade. Dos poucos bares do centro que Joinville oferecia há alguns anos, multiplicaram-se barzinhos, restaurantes e lanchonetes para todos os gostos e estilos.

Bernd não sabe, mas todo o turista que chegava na cidade nessa época só tinha duas possibilidades: ou ficar no hotel assistindo televisão ou sair para jantar e voltar para a cama por volta da meia-noite, no máximo. Com a proliferação de bares especializados, as opções tornaram-se maiores. Bernd, um alto funcionário de uma empresa suíça, esteve em Joinville pela primeira vez e ficou impressionado com o que viu. "Aqui a gente ouve música alemã no rádio, a noite é tranqüila e diversificada. Pretendo voltar outra vez, sem dúvida", explicava o alemão.

O ex-garçon Jorge Luiz Ramos é um dos responsáveis pelos investimentos no centro da cidade. Na esquina da avenida JK com rua São Francisco o burburinho de pessoas pode ser ouvido de segunda a sábado. Na quinta, o movimento do Boca de Bar aumenta e chegam a faltar mesas para acomodar tanta gente. Na parte externa, um toldo com mesinhas colocadas ao ar livre. No interior, uma decoração que lembra um pub inglês, com palco e mesas espalhadas pela casa. "Já chegamos a receber 450 pessoas numa quinta-feira", garantiu o filho de Ramos, Jorge Luiz Ramos Filho, 18 anos, que auxilia no atendimento.

"Aqui é interessante porque dá para ficar ao ar livre e ao mesmo se está em um bar com opção de música ao vivo", completou o paulista Alexandre Pires Groff, 25 anos, técnico metalúrgico. Ao contrário de São Paulo, garante o técnico, na noite de Joinville não é necessário preocupação quanto à violência ou brigas. "Dá para sair com tranqüilidade, sem medo", disse. Enquanto esteve na cidade, até a semana passada, Alexandre perambulou pelos bares do centro da cidade e saiu com a melhor impressão possível. "Não esperava que em Joinville tivesse uma noite assim", confessou o técnico.

Novo conceito

A noite de Joinville modificou seu perfil com o crescimento e a exigência dos clientes. Era preciso mudar estilos, reformar bares mais antigos e oferecer outro tipo de serviço. "O público não quer mais apenas um restaurante. Ele quer um lugar onde possa comer, beber, ouvir música, conversar com os amigos", explicou o empresário Beto Caputo, 35 anos, um dos sócios da Choperia Expresso, uma das mais antigas instaladas no centro da cidade. "Por isso estamos expandindo a choperia. Vamos redecorá-la e aumentar a área externa, para a Copa do Mundo", revelou Caputo.

No novo conceito e para agradar o cliente, o Expresso melhorou seu cardápio e aumentou a gama de opções. Oferece, além do bom chope, grelhados, filés de picanha cortados transversal, beirutes, frango empanado. Tudo o que um barzinho para um simples happy hour não costuma oferecer. "Temos pratos diferenciados, dentro daquele conceito de levar ao cliente mais do que um chope. Queremos que ele também coma e prove do cardápio da casa", completou Caputo. No começo, há sete anos, o Expresso tinha um perfil de restaurante. Aos poucos foi mudando a cara e se tornou um lugar descontraído, agradando a gregos e troianos. "É preciso investir para se manter no mercado", sentenciou Caputo.

 

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